As Letras entre a Tradição e a Inovação – CARLOS ASCENSO ANDRÉ

Colóquio_Carlos_André

AS CIÊNCIAS INÚTEIS NA CIDADE DOS SABERES
No começo da construção da cidade dos saberes, as distinções eram escassas e o convívio era regra. Se o anacronismo é consentido, a interdisciplinaridade dominava. Basta lembrar que a música figurava no quadrívio, ao lado da aritmética, da geometria e da astronomia. E bem, convenhamos. Tenha-se presente que as humaniores litterae são, apenas, “as letras mais humanas” (comparativo), o que vale por dizer que as outras “letras” não deixam de o ser. O divórcio cavou-se bem mais tarde. E não foi há tanto tempo como isso. Bem depois dos renascentistas, que raro se vergaram à separação dos saberes (Leonardo da Vinci é um exemplo entre muitos) e dos enciclopedistas, houve um sem fim de vultos da ciência, nomeadamente no século XX, que não descuraram a sua formação humanística, particularmente filosófica. Afinal, o divórcio de que tanto se queixam as gentes das chamadas humanidades talvez se deva muito à sua tendência para a clausura. Será? A ser assim, os obreiros da inutilidade de algumas ciências podem, mesmo, ser aqueles que delas fazem múnus. Mas até pode acontecer que a inutilidade seja, ela mesma, a sua utilidade. Nesse caso, porém, é o divórcio inevitável? Ou há caminho para ser contrariado? O propósito desta comunicação é reflectir sobre o conflito, sempre latente, entre as chamadas ciências humanas e as outras, e sobre a vantagem ou possibilidade de o contrariar.

Palavras-chave: Humanidades; letras humanas; saber humanístico; divórcio de saberes

USELESS SCIENCES IN THE KNOWLEDGE WORLD
At the dawn of the knowledge world, distinctions were few and sharing was the norm. If anachronisms are allowed, it can be stated that interdisciplinarity dominated. For instance, music featured in the quadrivium alongside arithmetic, geometry, and astronomy. It should be highlighted that humaniores litterae are merely the “more human arts” (comparative), which is the same as saying that the other “arts” are also human. The rift occurred at a much later time. And it was not so long ago. Long after the Renaissaince artists, who rarely gave in to the separation of disciplines (Leonardo da Vinci is one of the many examples) and the Encyclopedists, many great scientists, especially in the 20th century, did not neglect their humanistic and philosophical education.
Could it be that the separation of knowledge domains that the human sciences lament so much is in fact a consequence of their tendency to cloister themselves? Could it be so? If so, the ‘makers’ of the uselessness of some sciences could in fact be the ones whose role is to serve those sciences. It is indeed possible for uselessness to be useful in and of itself. In this case, however, is separation inevitable? Is there a way to counter it? The aim of this talk is to reflect on the ever-present conflict between the so-called human sciences and the other sciences, as well as on the advantages or possibility of opposing this conflict.

Key words: Humanities; liberal arts; humanistic knowledge; separation of knowledge domains


Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, aqui obteve, em 1990, o seu doutoramento em Literatura Clássica.
Publicou uma obra diversificada sobre as suas áreas de interesse: as línguas e literaturas clássicas, com especial incidência na literatura latina, seja a da época clássica (Cícero, Virgílio, Ovídio, Séneca), seja a do Renascimento e, ainda, aos estudos camonianos.
Foi presidente do Conselho Diretivo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, desde 2006 até 2013.
Assumiu em 2012 a direção do Centro Pedagógico e Científico de Língua Portuguesa do Instituto Politécnico de Macau, na China.
Antes fora coordenador do Pólo de Leiria da Universidade Católica Portuguesa (várias vezes, entre 1992 e 2005) e visiting professor em várias universidades estrangeiras: Universidade da Ásia Oriental, Universidade de Hamburgo, Universidade de Gottingen e Universidade de Poitiers.
Recebeu o Prémio Jacinto do Prado Coelho, em 2006.
Foi eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa em 2008.

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