As Letras entre a Tradição e a Inovação – JOÃO ARRISCADO NUNES

Colóquio_João_Nunes

REVISITANDO VICO E O DEBATE SOBRE O ANTROPOCENO
Num influente artigo publicado em 2009, o historiador Dipesh Chakrabarty defendeu a urgência de novas convergências e colaborações entre as humanidades, as ciências sociais e as ciências da natureza paraa compreensão e enfrentamento dos desafios do aquecimento global e das mudanças climáticas. Reafirmando a tese da origem antropogénica do fenómeno e subscrevendo a ideia de que a espécie humana se teria tornado um agente geológico, contribuindo de maneira irreversível para a transformação das condições que permitem a vida na Terra tal como a conhecemos, Chaktrabarty identificou como uma das origens das dificuldades em estabelecer essa colaboração a influência de leituras. Como as de Croce ou Collongwood, que geraram controvérsia, dos finais do século XIX e inícios do século XX, da obra de Gianbattista Vico – considerada como uma das contribuições fundadoras das humanidades e das ciências sociais na Europa – e das suas proposições acerca do conhecimento humano e dos seus limites. Esse comentário à herança intelectual de Vico suscita, contudo, uma questão interessante, uma vez que é reconhecida pelo próprio Chakrabarty a contribuição da ação dos seres humanos enquanto espécie para as alterações na geosfera e na biosfera, e a história das sociedades humanas se torna inseparável da história dos fenómenos geológicos e biológicos. A partir de debates recentes sobre a periodização e o modus operandi da mudança antropogénica – e da alegada entrada numa nova era geológica, o Antropoceno -, que se tornaram transversais às humanidades, ciências sociais e ciências da natureza, propõe-se uma releitura de Vico que traz para o centro do debate as contribuições dos saberes o que, numa veia Vicoiana, se poderia designar de poética da ação coletiva dos humanos-na-natureza.

REVISITING VICO AND THE ANTHROPOCENE DEBATE
In an influential 2009 article, historian Dipesh Chakrabarty supported the urgent need for new forms of convergence and collaboration involving the humanities, the social sciences and the natural sciences to understand and face the challenges of global warming and climate change. Chakrabarty reasserted his support of the thesis of the decisive anthropogenic contribution to the phenomenon, and of the idea that humanity as a species had become a geological agent, contributing in an irreversible way to altering the conditions that support life as we know it on planet Earth. His identification of the hurdles to this much needed collaboration rested on his revisiting the influence of some controversial late 19th- and early 20th-century readings of Gianbattista Vico’s theses on the conditions and limits of human knowledge, which have been hailed as one of the founding contributions to European humanities and social sciences. An interesting question arises, though, once the action of humans as a species is identified as a crucial contribution to changes in the geosphere and the biosphere, and human history becomes inextricable from the history of geology and biology. Drawing on recent debates on the periodization and workings of anthropogenic change – and the alleged entry into a new geological age, the Anthropocene -, cutting across the social and natural sciences, a re-reading of Vico’s work is proposed, frontstaging a fresh look at what might be described, in a Vicoan vein, as the poetics of collective action by humans-in-nature.


É Professor Catedrático de Sociologia da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Investigador Permanente do Centro de Estudos Sociais. Membro do Conselho Consultivo da Associação Portuguesa de Sociologia. Membro da coordenação do projeto ALICE – Espelhos estranhos e lições imprevistas, dirigido por Boaventura de Sousa Santos e financiado pelo European Research Council (2011-2016). Foi Pesquisador Visitante na Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), no Rio de Janeiro (2011-2012), e Diretor Executivo do CES (1998-2000).
Os seus interesses de investigação centram-se nas áreas dos estudos de ciência e de tecnologia (em particular, da investigação biomédica, ciências da vida e da saúde pública, da relação entre ciência e outros modos de conhecimento), da sociologia política (democracia, cidadania e participação pública, nomeadamente em domínios como ambiente e saúde), Direitos Humanos e teoria social e cultural (com ênfase no debate sobre as “duas culturas”).
Mais recentemente, coordenou os projetos de investigação “Avaliação do estado do conhecimento público sobre saúde e informação médica em Portugal”, no âmbito do Programa Harvard Medical School – Portugal e “O envolvimento da ciência com a sociedade: ciências da vida, ciências sociais e públicos – BIOSENSE”, ambos financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.

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