As Letras entre a Tradição e a Inovação – MANUEL PORTELA

Colóquio_Manuel_Portela

O QUE E A DIGITALIZAÇÃO DAS HUMANIDADES?
Antes de responder à pergunta formulada, farei uma introdução às Humanidades Digitais enquanto conjunto de práticas de produção e validação de conhecimento, por um lado, e enquanto discurso sobre essas práticas, por outro. A minha visão geral do campo das Humanidades Digitais examinará brevemente a constituição deste campo de conhecimento a partir de uma série de práticas baseadas em distintos modelos epistemológicos sobre a natureza e a função dos métodos computacionais no ensino e na investigação humanística. Todavia, qualquer narrativa histórica acerca do surgimento das Humanidades Digitais como conjunto de práticas e modelos de conhecimento (com histórias e tradições regionais e nacionais específicas) não pode ignorar a constituição discursiva do próprio campo através de autodescrições que disputam entre si o reconhecimento institucional, o financiamento da investigação e a hegemonia global.
O número crescente de coleções e monografias publicadas na última década que utiliza a expressão “Humanidades Digitais” (“Digital Humanities”, “humanitésnumériques”, “umanisticadigitale”, “humanidades digitales” ou “DigitaleGeisteswissenschaften”) testemunha o processo global de institucionalização do campo e a competição académica por recursos, reconhecimento e influência. Assim, uma história crítica das Humanidades Digitais tem de incluir esta perspetiva de segundo nível para podermos compreender também a produção social das HD como um campo de discursos acerca de si mesmo. Embora não seja possível, no contexto desta comunicação, fazer justiça à heterogeneidade das HD enquanto comunidades de prática ou enquanto campo de discursos, devem ter-se presentes estes dois níveis de análise para se pensar o que é e o que significa a digitalização das Humanidades ao longo das últimas três décadas: HD como uma série de práticas de investigação e ensino que usam métodos computacionais; e HD como uma série de discursos sobre HD.

WHAT IS THE DIGITIZATION OF THE HUMANITIES?
Before answering this question, I will offer an introduction to Digital Humanities as a set of practices of production and validation of knowledge, on the one hand, and as a discourse on these practices, on the other. My overview of the field of Digital Humanities will briefly examine the constitution of this field of knowledge from a series of practices based on distinct epistemological models on the nature and function of computational methods in humanistic teaching and research. However, any historical narrative about the emergence of Digital Humanities as a set of practices and models of knowledge (with specific regional and national histories and traditions) cannot ignore the discursive constitution of the field itself through self-descriptions which vie for institutional recognition, research funding and global hegemony.
The number of collections and monographs published in the last decade using the collocation “Digital Humanities” (“humanidades digitais”, “humanités numériques”, “umanistica digitale”, “humanidades digitales” or “Digitale Geisteswissenschaften”) testifies to the global process of institutionalization of the field and to the academic competition for resources, recognition and influence. Thus, a critical history of Digital Humanities must include this second-level perspective so that we can also understand the social production of DH as a field of discourses about itself. Although it is not possible, in the context of this talk, to do justice to the heterogeneity of DH as communities of practice or as a field of discourses, these two levels of analysis must be taken into account when thinking about what the digitization of the Humanities over the last three decades is and what it means: DH as a series of research and teaching practices that use computational methods; and DH as a series of discourses about DH.


Manuel Portela é Professor Catedrático no Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Doutorado em Cultura Inglesa pela Universidade de Coimbra (2001) e Agregado em Literatura Inglesa (2010). Foi bolseiro de pós-doutoramento da FCT no Institute for Advanced Technology in the Humanities (IATH), da Universidade da Virgínia (2008), e investigador visitante no Departamento de Inglês da Universidade de Maryland (2016). Tem lecionado nos cursos de licenciatura de Línguas Modernas, de Estudos Artísticos e de Ciência da Informação; no curso de mestrado de Estudos Ingleses e Americanos, e no Programa de Doutoramento FCT em Materialidades da Literatura, de que é Coordenador. Foi Diretor do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, entre 2005 e 2008. É investigador do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra desde 2007, sendo o coordenador do Grupo de Investigação “Mediação Digital e Materialidades da Literatura” (2014-2020).

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